terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Ela



Num dia como qualquer outro, ela abre um estojo empoeirado de maquiagem, pega o secador portátil na última gaveta do banheiro, tira a escova que há muito desaprendeu a passar e se olha no espelho.
Parecia que tinha acabado de acordar, mas o relógio já marcava dez e meia da noite. Espreme alguns cravos, acende a luz do espelho, abaixa na mesma gaveta onde o secador jazia e tira uma pinça.
A cada fio, os olhos se fechavam em leves espasmos e com isso reconhecia a dor da adolescência. Sentia no arrancar de pêlos os tantos anos em que essa mesma ação já nem era mais sentida.Com o buço já bastante vermelho, pára , espreme outros cravos de seu nariz e levemente passa a escova em seu cabelo bastante grisalho.
Mãos e pentes há muito haviam deixado de acariciar aquela cabeça. Um cabelo seco e morto banhado a água quente junto ao xampu mais barato da farmácia ao lado de sua casa.
Ela já não tinha mais sexo, perdera seu nome, seu jeito, ela esquecera quem fora, já não sabia a diferença entre ser triste ou feliz. Alguns dizem que ela já não sentia.
Porém, naquele dia, talvez terça ou sexta, domingo ou segunda, ela tinha voltado a olhar o espelho. Ela se cutucava, ela queria mudar aquilo que via, portanto algo a incomodava. Escova e lágrimas, dos olhos azuis saltavam a água mais pura, ela estava ouvindo seu coração bater, de algum lugar brotava vida.
Pega o secador, liga na tomada e sente o vento e o calor em sua cara. Arrepia-se com a brisa em cada fio de seu cabelo e relembra seu pai e os tantos tombos de bicicleta. Ele atrás gritando palavras de força á filha do pedalar bambo e o vento assoviando em sua orelha.
Aos poucos, aquela velha alma vai perfilando e adentrando um território desconhecido. Passa sombra, desenha vermelho na boca, contorna os olhos, realça o azul, passa fio dental, escova os dentes, colori as unhas, espreme mais cravos.
Para ela, era outra. Para os outros, era ela em outra. Apesar do horário, arriscou andar na rua e finalmente passou despercebida. Sua aparência já não repugnava, as pessoas que a conheciam olhavam fixamente, mas achavam que não podia ser verdade tudo aquilo.
Volta em seu apartamento, tira toda maquiagem , recorta, desmonta, retrai, suja, remonta. E ao se olhar no espelho, entende o seu prazer, o seu sexo, o seu. Ela não era uma , não era feia, feliz ou triste. Ela era dúbia, bonita e feia, amarga e doce, suja e limpa. Ela era.
Queria máscaras e mentiras. Queria lembranças e verdades. Queria sonhos e feiúras. Queria o desconhecido, queria ser olhada e não ser entendida.
Ao colocar sua cabeça no travesseiro, tinha certeza que aquilo não mudaria. Amanhã às dez e meia, ela iria se olhar no espelho mais uma vez.

Lucas G.

2 comentários:

Consty disse...

Perrrfeitooo... um dos mais bonitos que vc ja escreveeeu!!!
Te amo...

D. Schuberstein disse...

muito bonito!