quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Hipocrisia gustativa

- Não sei dizer!
- Então nada diz?
- Nada tenho para lhe contar.
-Pois nada tens?
- E por não ter, as formas se perderam!
-Foram para onde?
- Não foram . Remanescentes , permanecem no incomum . No indizível.
- Não diz por nada ter a contar ou pelas formas terem lá desaparecido?
- Por ambos. Não digo, pois engasgo tamanho não dizer. Aquele nó de pedra. Não sai. Disforme ou emoldurado, entendes?
- À mim, acho que há muito o repeliu e hoje dormes bens , querido!
- Pois agora sabes de meus sonhos? Sabes de tudo o que somente a mim guardo. Peso dos grandes. Guimarães já dizia: “Viver é um negócio perigoso”.
- Pois como! Tens a dizer, mas se esqueceu. Caras e bocas exalam vontades? Diga-me , segredo de Estado. Eu lhe prometo...
- Coitado, tornou-se trivial. Pensa apenas de um lado. Sou ouriço criado, dos grandes, e das puas minha defesa faço. Diariamente, desacredito no verossímil. Num explícito indesejado.
- E não mudas? Tirou,alguma vez, o recheio de um biscoito? Inverteu a ordem? Sentiu medo?
- Sou ego. Quero carícias e confortos. Fragilizado propago nesse caminho que, ao menos uma vez, deu certo. E como... Não são pedras, formas ou vontades. Carinho. É simples. Deixei há muito de sentir, desacredito em tão vaga possibilidade humana. Acalento encontrei somente naquilo do passado. Na nostalgia...imutável!
- Sensação boa a ti !
- Somente, mas quando se sente egoísta se torna. Fui tudo e mais um pouco. Mas, querido, as puas não deixaram de existir. Não imagine, pois nada acontece. Continuo o de sempre, o obsoleto, porém silenciado, entorpecido por defesas que eu próprio desconheço.
- Se desconhece e se defende. Vês fim em tamanha artimanha?
- Cá, hoje, sou. E sendo, propago. Em veias, em memórias e ritos. Nunca serei um, sou aquele que a situação me permite. Faço do vigente minha maior essência. Sou tantos dentro de um.
- Pois, agora, cá eu entendo. Desmistificar. Simples assim. Achei ter visto um dentre tantos. Engano, soslaio, “chiste”.
- Lição arraigou-se uma. Não minto e quando não sei omito. Fico no silêncio, letal arma humana.
- Letal e desconhecida. Muito aprendi contigo.
- Feliz eu fico. Só aprendo quando vejo mudanças. Você deu-me idéia de sentir. Não obstante, sei que nada mudei. Disfarço, meu caro! Sou bom nas artes de corpo.
- Bonito ouvir sua voz cuspir tais palavras.
- Já não posso mais mentir. Não à ti.
- Pois cuspa, meu acalento tornou-se isso ouvir.
- Cuspo!

Deitaram e fizeram amor até o sol amanhecer. O sol, diferente, dos tantos outros. E não tinham nada mais para explicar. Ficou apenas aquele silêncio, por eles, tão bem apreciado.

Lucas G.

2 comentários:

gabriela_greb_tozzo disse...

adoro o q vc escreve

L.G disse...

Adoro ouvir o que vc diz!