domingo, 25 de outubro de 2009

Mais um final de livro.

Tinha filhos, era casada, o ambiente em casa bastante harmônico, ao ponto de dar inveja a alguns membros da família e nunca ter precisado acender incenso. Trabalhava e no seu ramo, era bem sucedida. Como passatempo sempre teve seus livros. Uma biblioteca diversificada e uma gama de citações anotadas num caderninho guardado no criado-mudo.
Dizia sempre que os livros davam a chance de se pensar de outra forma, ser mais dura frente as adversidades, sentir-se mulher, ter orgulho do todo construído. Gostava de rever as ações tomadas, refletir. Adorava desafios. E este ela já esperava. Repetia-se sempre, tinha se habituado a essa barreira - o livro da vez estava próximo ao final.
O coração a boca esperando a última página, as linhas já passavam mais rápidas, despercebia os detalhes, queria terminar, uma conclusão naquilo que há semanas vinha se entretendo. As mãos tremiam, as unhas eram arrancadas em sintonia ao terminar de cada parágrafo.
Fim, pronto. Sabia o final da estória, um bom livro, podia agora descansar e dormir até mais um dia de trabalho, mais tarefas, poder usar o blazer novo que comprara em promoção, ver seu computador, tomar o café na padaria, o mesmo ônibus, o trânsito que no dia seguinte enfrentaria.
Fecha os olhos, o coração era sentido na boca, nos dedos das mãos, nos braços. As batidas a atrapalhavam e confundiam seus pensamentos. Começava a suar, mexia seus pés em movimento constante, algo a incomodava. A gola do pijama? Tinha feito xixi antes de dormir? O ronco do seu marido? Nada disso acontecia. Por que tanto movimento? Chega, não quero mais, posso descer?
Tudo de novo, era o final de um livro.
Pensava na sua vida. Nos amores antigos, na vida de colégio, a entrada da faculdade. A primeira gravidez, a segunda. O primeiro sexo sem camisinha. A formatura. Seu primeiro beijo. O casamento. Cada pedaçinho da sua vida ligava-se ao fechar de um livro. Mais suor... Tinham sido tantos, tantos enredos, tantas outras estórias. Diferentes, por vezes, mas conexas ao mesmo tempo. Travestia-se num personagem em algum dia, já duvidara de si mesma em outro, já se perdera tantas vezes dentro de si - levanta e troca de pijama.
Uma vida sempre muito certa. Regrada, com um começo clássico e um término previsível, ao estilo americano. Piegas, talvez. Nunca havia se questionado se era, de fato, feliz. Ou o que seria isso? Não invejava ninguém, não queria ser diferente. Por outro lado, por que os tantos livros, aquela vasta biblioteca? Cultura? Não era. Todo final de livro era sempre a mesma sensação. Sempre uma noite mal dormida.
Via nos livros um pouquinho do que ela nunca teve. Do que não sabia. Tinha medo de se desconhecer, queria ações precisas, ao tempo certo e com sorriso no rosto. Não podia ter um dia ruim. Estava viva. Uma vida perfeita, filhos saudáveis e um marido decente. Não tinha problemas e se tinha via soluções pragmáticas.
Os livros, porém, davam seus problemas, abriam feridas, curavam outras. Os livros a questionavam, inquietavam suas noites. Pois então, por que lia? Seria ela uma contraventora? Uma subversiva. Queria ela ir contra corrente? Contra a idéia de perfeição? Talvez, uma sádica? Louca por autoflagelação e masoquismo. Não lia por cultura e sabia disso. Não sabia quando esse hábito tinha se iniciado, mas agora, já era tarde para pensar nisso. O relógio marcava três e meia da manhã e mais um dia estava por vir. Ônibus, café, passos, teclas, sorrisos...
Não conseguia dormir. Ela tinha desenhado sua estória, porém seria esta a vida que queria? Seria mais feliz de outra forma? O que era ser feliz? Quem ela era? Suor e o lençol já saindo da cama por tantas viradas de corpo.


Naquela noite, ela não dormiu. Acordou e foi direto ao seu trabalho. Fez as mesmas tarefas, cansada, perturbada e com o coração a boca. Tomou seu café no mesmo lugar, digitou as mesmas teclas, conversou com as mesmas pessoas e com seu marido da mesma forma, deu um beijo de boa noite em seus filhos e quando deitou em sua cama, abriu um novo livro.

Lucas Galati.

Um comentário:

B. Fleischer disse...

adorei! o final ate me arrepiou