domingo, 1 de março de 2009

Eduarda

Meu êxodo foi interno, saca?Mano, adoro essa palavra: Êxodo. Se liga na pronúncia.
Voltando. Desculpa aí! Então, eu não agüentava mais. A faixa na cabeça, o colarzinho de pérolas dado pela tataravó, o vestidinho amarelo combinando com margaridas. Puta falta de originalidade, meu! Junto com tudo isso, ter saco pra agüentar essa porra de mania em falar tudo no diminutivo.
Chegou um momento que eu cansei de tudo. Mostrei o dedo do meio para todo mundo e fiz questão de ser oposta em tudo.Todo mundo nessa época tinha uma brisa: Maconha, música pop, calça justa, ser loira. A minha vibe era ser contrária. Tinha que usar rosa? Eu virei roqueira. Tinha que usar shorts na aula de Educação Física? Eu colocava calça de moletom de um número bem maior que o meu. Menina sentava de pernas cruzadas? Pois bem, eu arregaçava as minhas e quase fingia coçar uma genitália inexistente.
Não tinha nascido para viver conforme aquilo que me ditavam. A sociedade era nojenta o suficiente para inventar estereótipos, fazer de bundudas sem cérebro apresentadoras de televisão e criar cotidianamente um novo tipo de repressão ou fobia. Eu que não faria parte disso.
Continuei nessa vibe mó cota! Fui chamada de lésbica, algo que também já tinha provado só pra ser contrária, mas percebi que não curtia mesmo. Fui ridicularizada, aquela coisa bem tosca de filme americano, saca? Tipo, o “cartaizinho” com uma piadinha de mau gosto. Vixi! Passei por muito babado nessa vida. Usei uma pancada de drogas e fiz tudo isso por que eu tinha que ser contrária. Não podia usar, vinha com aquelas porrada de cartaz sobre a campanha da fraternidade, mandava toma no cu e arranjava na hora para experimentar. Quase fui expulsa de casa, ficava de castigo duas vezes em cada semana. Foi um bagulho tenso.Não me culpo, eu precisava disso tudo , entende? Mas foi uma puta bad trip.
Foi quando conheci o Marcelo, menino de rua, sem pais, morador da praça da Sé e gente boa pra caramba. Saindo de uma balada, que minha mãe havia me proibido de ir, comecei a trocar idéia como a gente sempre fazia. Sei lá, acendemos um e começamos a falar da sociedade, do que a gente não concordava. Ele falando dos problemas sociais e eu da minha necessidade em ser contrária. Ele falando que tinha apanhado na noite passada e eu falando dos meus problemas com minha mãe. Foi quando do nada ele virou para mim de boa e falou:
- Mina! Vo ser sincero, tá ligado! Cê fica nessas vibe de querer ser contrária, mas tu já percebeu que de qualquer forma vive pela sociedade. Cê tenta fugi da sociedade, mas tu parte dela pra ser contrária.
Puta , aí foi foda! Nessa hora me senti um lixo! Por que eu realmente não tinha me tocado. Eu querendo de qualquer forma ser contra a tudo que a sociedade impunha, acabava fazendo minha vida a partir dela. E ser contrária não é isso,saca? Ele falando dos milhares de problemas que ele passa, e eu filhinha de papai falando dos meus novos piercings e minha tatoo com o símbolo do anarquismo. Porra meu! Muito errada.
Voltei para casa chorando pra caramba. Troquei idéia com minha mãe a noite inteira, pedi desculpas pro meu pai. Não tinha como a gente saí fora da sociedade, saca? Ela faz nossa vida,o ser humano ganha e perde vivendo assim. Comecei a ver os pontos positivos da vida em grupo e comecei a entender que qualquer extremismo é cilada.
Claro que eu podia ser contra, mas ao invés de ser da boca pra fora. Que eu fizesse da minha oposição algo palpável. Que eu reivindicasse, lutasse por aqueles que não tiveram a mesma sorte que eu tinha.
Sei lá. Ao mesmo tempo, curti pra caramba essa minha fase. Como disse, eu precisei dela para me entender e enxergar no que eu realmente era contrária.
Hoje, não sou um exemplo de feminilidade e bons modos. Mas discutir comigo não se tornou mais perda de tempo e falação, saca? Criei argumentos e é muito louco isso.
Pronto? Gravou? Ficou bom será? Nossa eu tava suando.

Lucas G.

Um comentário:

Li disse...

Cara, irado!!

E só uma dica, não tem muito a ver com esse lance politico, mas cara tudo a ver com a vida:
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=41076757