domingo, 5 de julho de 2009

Não haveriam explosões



Naquela relação haviam apenas enganos e enganados. Uma junção imperfeita, um processo de coligação altamente fictício e, diria até, de base nostálgica.
De certa forma, aparentava que da relação não existia o palpável, o definível; apenas um abismo, uma clivagem irresponsável dos corações soltos, dos desejos mais primários e infantis, de um começo necessário, mas hipócrita. Como a relação toda em si.
Longe de querer os mesmos questionamentos ou elucidações. Mas todo recomeço é pautado em algum passado. Todo recomeço carrega consigo singelas picadas daquele inseto verde de Clarice. Recomeçar revivia o pedido da última onda do ano que se despedia.
E eu não conseguia. Não queria. E não podia. Um recalque sólido e frígido. Uma atitude que estava longe dos sentimentos e fincada na racionalidade e na frieza do esquecimento.
Ao recomeçar, achei ser apto a tudo o que viria. Achei poder transformar meus exaustivos dogmas, tive certeza que minha visão havia mudado, que meus anseios eram outros e que a jovialidade do antigo discurso já não apetecia. Pois bem, e não mais mesmo.
Muito havia mudado. Outros momentos, outras pessoas, outros ciclos e círculos. Contudo, ao medroso aqui que vos fala, uma antiga sensação passou a ocorrer. O passado rígido, o delimitar abusivo, o esquecimento palatável, estranhamente, arqueavam-se e afrouxavam aquela redoma altamente intransponível.
Mas, sem explicação, no instante da ação tomada, já elucidava: Jamais seria.
Não sou capaz, não me divirto, não são adendos. Quis que fosse, continuarei tentando na hipocrisia anormal, ou talvez, na normal veracidade de passos trêmulos, de ajudas sinceras e descompromissadas. Não obstante, um medo ainda permanece, um medo que, apesar de não admitido, transpassa o limiar do querer. O medo do retorno. O pavor da irrealidade. Um medo de mais feridas e de possíveis explosões. Não consigo, não posso e...

Lucas G.

Um comentário:

Li disse...

que bom que o medo ainda existe
porque se ele se vai é que já demos aquele primeiro passo na frente do abismo
o gostoso é viver ali, na beira