segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sem título

Roia as unhas que já não tinha. Olhava na janela e a sua cara pálida refletia a noite passada. Vodca seguida das batidas de uma balada no subúrbio paulistano.
O relógio de pulso anunciava o amanhecer do dia. A casa ainda em silêncio; alguns fechares de portas e esporádicos estampidos do chão de taco marcavam um novo dia para todos os outros. Mas não para ele. Ele não tinha um novo dia pra começar.
Sentado numa cadeira velha em frente ao computador revezava entre salas de bate papo e profiles do Orkut. A inanição lhe apetecia. Tinha livros para ler, tinha coisas a escrever e, naquele momento, até queria conversar. Porém, tudo era tão difícil, era distante. Aquele homem se deixava levar pelo barulho da máquina, pela restrição das tamanhas possibilidades de uma rede infinita, pela única coisa que ainda lhe dava alguma espécie de prazer.
Homem feito de tecnologia. Por tudo que este fazia dela, uma dose diária do mais puro veneno: a idêntica sequência de ações. Não havia o que começar, pois já não sabia o que era o diferente. O homem temia a distinção.
Junto ao tocar das teclas, via-se sangue. As unhas, quase inexistentes, pediam socorro a mais aquela repetição. A perna mexia num frenético cacoete, movimentos exatos e, por mais angustiante que fosse, iguais. Exatamente iguais como todos os outros dias daquele homem.
O cigarro no mesmo horário, a tontura e o cheiro da nicotina excitavam um falo já automático. Erguido por aquela sequência. Seu orgasmo tinha horário, seu prazer um site.
Ejaculava e de frente ao espelho dava adeus ao seu sexo. Há muito, virtual. Um leve gemido no ápice do seu orgasmo relembrava os antigos momentos reais, as carícias e o cheiro de gente. Fingia se satisfazer, até tentava distinguir as inúmeras masturbações noturnas. Mas até elas, tinham se tornado iguais.
Às sete da manhã, mais um cigarro. O escovar dos dentes seguido de um gole na água da torneira. Desliga o computador, coloca o pijama, deita na cama de bruço e adormece até as três e meia da tarde, quando seu relógio iria despertar e mais um dia reiniciaria. Idêntico e sem começos. O dia das teclas, das gozadas, do sangue. Os dias iguais precedidos de noites de vodca e batidas frenéticas, porém vazias e sóis. Aquele homem não sabia ser diferente.

Lucas G.

Um comentário:

Li disse...

mas é que eu gosto tanto daquele homem... deu um jeito tão diferente

que me angustia ver que não te ver já virou repetição




e como blog é só pra comentários profissionais e poéticos, eu vou parar por aqui e logo menos te ligo