sexta-feira, 24 de abril de 2009

Niilismo admitido

Eu não tive daqueles dias que param. Estive longe das cenas dos filmes românticos, do suor gotejando no paletó em busca da pessoa amada, do telefonema inesperado, da mensagem criativa, da proposta de emprego certeira, ou mesmo, daquela veemência em conseguir afirmar uma profissão. Sou desinteressante, escasso e altamente paliativo.
Não faço as coisas que gosto, desisto em tentar algo possível, sou incapaz em pensar no futuro. Está nublado, é nublado, sempre foi nublado, logo, para que pensar? Das indecisões ao esclarecimento efêmero num copo de cachaça no final da semana, onde a alteridade salta aos olhos e parece que viu sentido ao mundo. Daí, eclodem promessas, fluem os desejos,até se escreve os compromissos para o dia seguinte. Outros ares, outras pessoas, outros olhares, vestir uma camisa vermelha, dar uma volta no parque, ir ao teatro, fazer yoga – longa lista.
Dos desenfreados devaneios, o dia amanhece apenas com a dor de cabeça e a dúvida: Quanta bosta falei na noite passada? Um gole de Coca junto à força dos pensamentos existencialistas. “Você disse sua essência.” “A bebida aflorou aquilo que você queria há muito dizer.” Um auto convencimento infame e de curta duração. Grande bosta, sou um bosta. Cagado, eu sou um cagado. Soa melhor.
Nessa premissa, continuo no meu dia ainda nublado, sem perspectivas e pior, sem meus goles destilados, pois o estômago embrulha só de pensar no gosto da boca nesta manhã. Ai! O edredom parece chamar e a preguiça imobilizava-me ao pensar em pegar o carro e ir para a universidade. Cada dia com melhores artimanhas, me vence na primeira tentativa.
E os dias que param, lá do começo, não chegam. Pelo contrário, tornam-se aqueles de céu preto intermináveis, acabo vidrado no movimento das asas dos ratos voadores, deixando meu legado pelos vinte minutos sentados numa cadeira velha em frente a uma máquina barulhenta. Os livros ganham um ácaro a mais a cada dia, meu armário , uma camisa amassada socada ao fundo da primeira prateleira.
Como solução, o sofá com a proteção florida contra as unhas da cachorra, assentam-me numa posição relativamente satisfatória. Ligo a televisão e fico no entendimento daqueles todos que ou fazem o mesmo que eu , ou sentem o que aqui descrevo e se calam. Tenho preguiça de viver e aliviado em conseguir dizer isso.

Lucas G.

3 comentários:

Ve Gonçalves disse...

Nossa! Adorei seu texto... Muito intenso!

Mayara Facchini disse...

Vim retribuir a perseguição. E dizer que, se vale de algo, eu faço tudo ao contrário e ainda assim não sossego com nada; também preciso escrever.

L.G disse...

Obrigado pela retribuição e por entender a razão de minha escrita!