domingo, 29 de março de 2009

Clivagens e fortalezas

Aquele discurso pronto já não apetecia mais. As mentiras travadas como resposta para uma guerrilha dos cavaleiros desarmados. Sanguinária e sujeita à possíveis difamações. Quer dizer, assim ainda se pensava.
Um celular que toca ao som das séries de oito digitos passados. O ressonar da história sem preâmbulos, da pauta dos imediatos, do cuspir em resposta ao gosto ruim na boca, o azedo sabor da contextualização. Em suma, de um conto sem final e engolfado em omissões e mentiras. Recorrentes frases de efeito.
O papel que nem rascunha mais, injeções de literatura para um relato sem intempéries, que deu pra se chamar de vida.
Sopros e distúrbios. Caminhos e retórica. Soluços e sexo.
Portas para um preenchimento tão longínquo. Que se faz da música, das palavras, do prazer, do desgosto. Que, hoje, se faz de tudo e de uma festa repleta de individuos transbordando em orgasmo, ninguém se enxerga. Corpos irregulares, massas bestiais circulando entre beijos e danças sensuais.
O susto ao se olhar de fora. Apenas cadeiras vazias, fumaça, copos com marcas de batom e o sax tocando ao fundo. Natureza morta.

Lucas G.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Um de seis



Segunda, cessa o encanto,
Esvaio em sádicas inquietudes,
Alerto angústias e
Transpiro agonia. Lúgubre e
mórbida.

Dos tão certos erros,
Do prazer transtornado e doentio,
Das vagas certezas,
De um escuro. Simples.

Segunda, os ângulos transgridem caminhos,
Rechaçam em pós de borracha e o diafragma ulula.
Inquieto e arguto, vagueio em gagueira e sinapses.
Segunda, inexiste

Na asfixia dos sem vida,
Dos sem cor,
Sem ter e
Sentir.

Sóbrio,
Refaço e recolho as lembranças dos dias já antigos,
De um ontem de misturas incertas e cara de amanhã.
Límpido e novo.
Mas ainda com espírito do primeiro dos outros longos seis dias e

estampidos tão próximos quanto os pássaros de outras terras.


Lucas G.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Diadorando/ Zé Modesto



"Tempo, inteiro de tantos dias,

contou-me num desses tantos

que a vida escolheu o sertão

escuro e frio do humano

e lá tratou de esconder

calor de intenso tutano

difícil de campear


garimpeio e o verbo em pena

vagou no vão das palavras

confins de terras, secume,vazio intenso das almas

pro esteio dos Campos Gerais

ganhar no aprumar da vista:

paragens de terra plana


depois de tanta procura

no farto ralar dos calos

no pó passado das pernas

se ver, chegança de espera

nos pés o cerne do andante,

o ser e estar do trajeto


e o tempo velho então disse

que o que balança as carcaças

e torna o pulso pra os homens

é arte feita em palavra:


o que se chama poesia


que em todo canto tem fonte,

nascentes no mundo poucas

e nas Gerais deixa os versos

escorre beleza em prosa


é o verbo pintado humano

em tons de Guimarães Rosa!"

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sem título

Talvez mais um simples quadro na parede da memória. Relíquia. Quem sabe um outro momento dos tantos que sei que virão.
A luva para aquele instante em que se abre a geladeira e não se tem o que pensar. O gracejo dos segundos de sonho acordado.
A primeira vez em que vetores fizeram algum sentido. Meus sentidos acobertados e minhas cobertas sem sentidos.
Um distúrbio? O além de mim, a sensação de pedra, de rocha, de realização. Para mim, de mim e meu.
O toque, sem jeito, mas torneado. Da cabeça baixa ao alarme por qualquer movimentação. Verossímil.
Manias engolfadas nos nostálgicos corredores de um colégio particular. Controverso, enganado, estupefato. Tudo jogado, pisado, queimado e morto. E cálido.
Mas desses amanheceres o tamanho da vida! Grande , mas de olhos cegos. E que de lapsos irremediáveis escancara azuis, amarelos e vermelhos jamais vistos. São lindos e vale muito a pena os ver.

Lucas G.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sorriso de vidro



Eu olhei.
Olhei e não te vi.
Era vidro,
Caco.
Eram aqueles
momentos.
Vividos.
Antigos.
De vidro.

Lapidado,
Cobiçado,
Divisível.

De vidro, o sorriso.
Os cacos á frente
Ruídos.
De todos os dentes,
Sorriso vivido.

Centelha,
O sopro e o antigo.
A dor
- passado nocivo.
Ainda de vidro.

Vagueia
Uma ânsia passageira,
Dos livros,
Dos ditos,
Dos tantos sonhos perdidos.

Envolto,
Sofrido,
Libido.

Sigilo, retorne.
Ao seu antigo.
Antigo estado de vidro.
Abro os olhos, e tudo já tinha escrito.
Em todos aqueles cacos ruídos.
(Dedicado à Mariana Quintino e aos nossos papos musicais)


Lucas G.

domingo, 1 de março de 2009

Eduarda

Meu êxodo foi interno, saca?Mano, adoro essa palavra: Êxodo. Se liga na pronúncia.
Voltando. Desculpa aí! Então, eu não agüentava mais. A faixa na cabeça, o colarzinho de pérolas dado pela tataravó, o vestidinho amarelo combinando com margaridas. Puta falta de originalidade, meu! Junto com tudo isso, ter saco pra agüentar essa porra de mania em falar tudo no diminutivo.
Chegou um momento que eu cansei de tudo. Mostrei o dedo do meio para todo mundo e fiz questão de ser oposta em tudo.Todo mundo nessa época tinha uma brisa: Maconha, música pop, calça justa, ser loira. A minha vibe era ser contrária. Tinha que usar rosa? Eu virei roqueira. Tinha que usar shorts na aula de Educação Física? Eu colocava calça de moletom de um número bem maior que o meu. Menina sentava de pernas cruzadas? Pois bem, eu arregaçava as minhas e quase fingia coçar uma genitália inexistente.
Não tinha nascido para viver conforme aquilo que me ditavam. A sociedade era nojenta o suficiente para inventar estereótipos, fazer de bundudas sem cérebro apresentadoras de televisão e criar cotidianamente um novo tipo de repressão ou fobia. Eu que não faria parte disso.
Continuei nessa vibe mó cota! Fui chamada de lésbica, algo que também já tinha provado só pra ser contrária, mas percebi que não curtia mesmo. Fui ridicularizada, aquela coisa bem tosca de filme americano, saca? Tipo, o “cartaizinho” com uma piadinha de mau gosto. Vixi! Passei por muito babado nessa vida. Usei uma pancada de drogas e fiz tudo isso por que eu tinha que ser contrária. Não podia usar, vinha com aquelas porrada de cartaz sobre a campanha da fraternidade, mandava toma no cu e arranjava na hora para experimentar. Quase fui expulsa de casa, ficava de castigo duas vezes em cada semana. Foi um bagulho tenso.Não me culpo, eu precisava disso tudo , entende? Mas foi uma puta bad trip.
Foi quando conheci o Marcelo, menino de rua, sem pais, morador da praça da Sé e gente boa pra caramba. Saindo de uma balada, que minha mãe havia me proibido de ir, comecei a trocar idéia como a gente sempre fazia. Sei lá, acendemos um e começamos a falar da sociedade, do que a gente não concordava. Ele falando dos problemas sociais e eu da minha necessidade em ser contrária. Ele falando que tinha apanhado na noite passada e eu falando dos meus problemas com minha mãe. Foi quando do nada ele virou para mim de boa e falou:
- Mina! Vo ser sincero, tá ligado! Cê fica nessas vibe de querer ser contrária, mas tu já percebeu que de qualquer forma vive pela sociedade. Cê tenta fugi da sociedade, mas tu parte dela pra ser contrária.
Puta , aí foi foda! Nessa hora me senti um lixo! Por que eu realmente não tinha me tocado. Eu querendo de qualquer forma ser contra a tudo que a sociedade impunha, acabava fazendo minha vida a partir dela. E ser contrária não é isso,saca? Ele falando dos milhares de problemas que ele passa, e eu filhinha de papai falando dos meus novos piercings e minha tatoo com o símbolo do anarquismo. Porra meu! Muito errada.
Voltei para casa chorando pra caramba. Troquei idéia com minha mãe a noite inteira, pedi desculpas pro meu pai. Não tinha como a gente saí fora da sociedade, saca? Ela faz nossa vida,o ser humano ganha e perde vivendo assim. Comecei a ver os pontos positivos da vida em grupo e comecei a entender que qualquer extremismo é cilada.
Claro que eu podia ser contra, mas ao invés de ser da boca pra fora. Que eu fizesse da minha oposição algo palpável. Que eu reivindicasse, lutasse por aqueles que não tiveram a mesma sorte que eu tinha.
Sei lá. Ao mesmo tempo, curti pra caramba essa minha fase. Como disse, eu precisei dela para me entender e enxergar no que eu realmente era contrária.
Hoje, não sou um exemplo de feminilidade e bons modos. Mas discutir comigo não se tornou mais perda de tempo e falação, saca? Criei argumentos e é muito louco isso.
Pronto? Gravou? Ficou bom será? Nossa eu tava suando.

Lucas G.

O vendedor de mancebos

Santiago Nazarian

O verão lhe trazia um ultimato. Vinha voando pela janela aberta e deixava para trás véus de uma cerimônia que eles não tinham. Sem cerimônia, os cupins invadiam seu apartamento, devoravam seus móveis, o deixavam cada vez mais próximo do chão. O chão também era de madeira, isso o fazia pensar que, em breve, ele afundaria num buraco sem fundo. E não era nada poético pensar assim.

Ele era cronista, e isso lhe trazia cada vez mais vergonha. Não estava esclarecendo os fatos, como seus colegas jornalistas, nem sublimando-os, como seus amigos escritores. Ele tinha compromisso com a verdade, mas essa não poderia lhe salvar. Ele observava o mundo pela sua janela aberta e o mundo era cinza, poluído, dava de frente para uma construção que nunca terminava e onde não havia nada para olhar, apenas sons a martelar.

Ainda assim, tinha de manter a janela aberta, não apenas para a observação de suas crônicas, mas pelo verão que esquentava o apartamento sem ar-condicionado e que o sufocava com promessas de dias ainda piores, ainda mais quentes, ainda mais baixos.

Os cupins entravam em busca da luz acesa e da madeira latejante, então ele apagava a luz e esperava que o compensado de seus móveis não abrisse grandes apetites, mas abria. E a luz fria da tela do computador queimava seus olhos, quando a luz quente do teto não podia acalmá-la. E a luz quente do teto dançava com os véus sendo jogados e os cupins caindo ao seu lado e tudo o que ele queria era um inverno para desistir. Mas o verão lhe trazia um ultimato.

Ele teria de terminar aquela crônica antes de os cupins o colocarem no chão. Ele teria de terminar aquela crônica antes que o mês virasse e o afundasse nas contas do mês seguinte e ele não pudesse mais adiar sua morte, porque ele não teria como sobreviver. Era preciso escrever.

Formado em jornalismo, envelheceu sem nunca conseguir exercer. Viveu de uma série de bicos, às vezes até com qualidade, formando um currículo que só poderia fazê-lo gabar-se de sua cultura, de suas leituras, de saber escrever. Coisas que nenhum editor poderia medir. Coisas que valem muito pouco quando ninguém realmente sabe ler.

Ele lia os livros de cabo a rabo, depois estudava as orelhas. Enfiava o dedo nelas e tentava tirar a cera cotidiana de cada escritor. Como eles faziam para ganhar a vida? O que eles tiravam de cada dia para comer? Só explicavam o que já haviam publicado, os prêmios que ganharam, mas eram jornalistas, médicos, advogados? Ninguém é só escritor.

E os livros não traziam a solução para sua própria vida. Assim como a janela aberta só trazia insetos voando. Ele procurava inspiração na frente do computador, e esperava escrever um texto com o título “A Estação dos Cupins”. Com certeza era uma crônica de seu cotidiano.

Ia escrevendo sobre isso, inspiração sobre a falta de inspiração, como ele e tantos outros já fizeram tantas vezes. Procurava as palavras certas para descrever seu estado. Procurava a palavra certa para descrever o móvel do seu computador. Rack, é isso, ele se lembrou de ler num folheto promocional. Atualmente as palavras vinham fugindo como asinhas deixadas para trás. Devia ser pelo copo ao lado do teclado, uísque barato, o fazia esquecer.

Até que outros vôos o fizeram se virar. Um ruflar de asas às suas costas o afastou dos cupins e fê-lo perceber que naquele apartamento entrara outro animal. Uma ave pousou em seu móvel. Um pássaro olhando para ele. Poderia ter sido um corvo, seria poético, mas ele era cronista, e um periquito foi tudo o que viu. Verdinho.

Sua velha mãe diria que aquilo era bom presságio, traria dinheiro. O periquito entrando em seu apartamento formava uma cena engraçada, era simpático, mas ele acharia mais bonito uma ave de agouro.

De qualquer forma, melhor do que escrever sobre cupins. Passou a escrever sobre a ave, mesmo achando que ela entrara lá apenas para se alimentar dos insetos. Será que periquito come cupim? Não são frutos, sementes ou folhas? Ele é que não iria alimentá-lo, não tinha fruta nem para si. Nas poucas vezes em que gastou dinheiro tentando ser saudável, a fruta apodreceu na geladeira. Pegou uma cerveja.

Começou a pensar que era mesmo estranho uma ave daquelas solta pela cidade. Devia ser animal doméstico, bem criado, não poderia ter vindo de longe. De repente daquele prédio mesmo, de outro andar. Interfonou o porteiro e perguntou:

“Me desculpe, alguém perdeu um periquito?”

“Como? O senhor está de brincadeira?”

“Entrou um periquito aqui no meu apartamento. Pousou no meu... no meu... na minha arara.”

Um periquito na arara. O porteiro não achou graça nenhuma. Ele também não, não achava, mas seu editor com certeza acharia. Era bem o que se esperava de uma crônica, “Periquito na Arara”. Achou que aquilo era um título melhor do que “Estação dos Cupins”. Continuou a escrever.

Mas não era uma arara. Não, aquela era outra palavra que voara de sua mente. Era uma dessas hastes para pendurar casacos e chapéus. Um cabideiro, talvez, ele pensava. Arara é maior, com cabides, para pendurar todo tipo de roupa. Então como será o nome daquele troço em que o periquito pousara?

Nessas horas, o dicionário não servia para nada. E ele não tinha ânimo para ligar para os amigos, para perguntar. Tinha certeza de que havia um nome mais apropriado do que “arara”, do que “cabideiro”, mas não conseguia encontrar. Terminou de escrever e decidiu deixar assim mesmo. Ao menos, arara com periquito formavam um par.

Mas o periquito logo voou para longe.

No dia seguinte, ele acordou indisposto, como acordava todos os dias, embora quase de tarde e embora quisesse continuar dormindo, o sol quente o obrigava a se levantar. Foi caminhar em volta do quarteirão, seguindo recomendações médicas, perder peso, cuidar do coração, exercícios aeróbicos, na Rua da Consolação.

A pressa dos outros o fazia nervoso, apressado também, embora não houvesse por que correr. Embora não houvesse sentido em caminhar, o médico dizia que sim. Ele continuava e andava devagar, atrapalhando a passagem dos outros, um inferno, ele tinha de se apressar. Não olhava a paisagem nem ouvia os ruídos. Olhava para dentro de si mesmo, construindo suas histórias, resgatando seu percurso, do apartamento até a rua, da infância até a adolescência, da faculdade até a decadência, a decadência atual. Não queria subir mais uma rua, desceu. E sem olhar percebeu que seus “cabideiros” passeavam logo à frente, velozes.

Era um vendedor, vendedor de cabideiros, araras, ou o que fosse. Era um jovem carregando aquelas hastes com braços. Com braços fortes e bronzeados, ia como os outros, apressado. Vendedor ambulante. E o velho cronista apressou o passo para encontrá-lo.

“Desculpe, o que você vende aí?”

“É para pendurar chapéu, gravata, 20 conto.”

“Sim, mas como se chama?”

“Meu nome?”

“Não, o nome disso aí que você vende.”

“Tem vários nomes, cada um chama de um jeito. Não sei direito. Eu só vendo.”

Perguntou então o nome do rapaz. De repente serviria para alguma coisa. De repente para sua crônica. Com aqueles braços fortes, vendendo cabideiros pela rua, em pleno verão, quando ninguém usava chapéus, muito menos casacos.

Voltou para casa, mas só voltou a escrever no final da tarde. Quando o calor abrandou um pouco, e os cupins voltaram com seus véus. Ele ficou olhando para a miríade e para o cabideiro, lembrando do periquito, do jovem, do efebo.

Seria melhor escrever sobre ele do que sobre o periquito, era mais poético, literário, ainda que cotidiano. Poderia talvez juntar todas as coisas, os cupins, as aves, o verão, o rapaz, estava tudo interligado. Poderia escrever sobre o rapaz subindo as ruas com os braços fortes, sem repouso. Carregando a haste de madeira sobre a qual todos poderiam descansar suas roupas. Todos tirariam as roupas pela haste daquele jovem rapaz. Não, assim já cairia para o erótico. Mas naquele verão era capaz. Ele penduraria todo o seu respeito de cronista sobre a haste daquele jovem rapaz.

E naquele final de tarde, onde ele estaria? Bebendo cerveja com uma boa companhia. Sonhando com um futuro glorioso, em que ele vestiria casacos, chapéus, gravatas. Um futuro que, para o cronista, nunca veio, embora ele também tenha sonhado. Embora ele também tenha sido jovem, embora ele também tenha tido braços fortes... mas nem tanto.

E a haste daquele jovem rapaz, onde estaria? Repousando ao seu lado. Assistindo ao final da tarde com a maior cara-de-pau. Sim, isso ficaria bem em sua crônica. O editor adorava trocadilhos. Ele colocaria mais uns sobre os braços da haste. E deixaria descansar os braços do jovem rapaz.

Mas então se lembrou de uma imagem antiga. Uma imagem que o copo de uísque não conseguiu diluir. Um longo tronco de madeira no final de um dia. Uma árvore velha no começo de um verão. Num final de tarde, saía a miríade de cupins de dentro dela, se espalhando por toda a região. Era de lá que vinham os cupins, de outros troncos, outras hastes, outras madeiras ao ar livre, que eles podiam chamar de lar.

Então, quem sabe, não era de lá? De dentro daquela haste que os cupins saíam. Dos braços do rapaz, do menino, do efebo. Quem sabe, os cupins não viriam direto dos braços do mancebo?

Finalmente recuperou a palavra. Mancebo. Era perfeito. Perfeito como sua haste rígida. Perfeito como seus braços fortes. Mas repleto de cupins em seu interior. Ele podia parecer firme enquanto jovem, mas, quando envelhecesse, sobraria apenas uma casca vazia. Apenas o pó da serragem sobre seus pés. Assim como o velho cronista...

Aquilo encerrava sua crônica. Uma imagem linda. Quase transcendia para um conto, mas não era isso que o jornal queria. Pouco importava. Era o que ele precisava escrever. Era o que ele precisava contar. Era o que ele precisava dizer... para o mancebo vendedor de si mesmo.

“Preciso te dizer uma coisa”, ele disse alguns dias depois. Foi difícil, mas nem tanto. Procurou o jovem em suas caminhadas, todas as manhãs. Logo o encontrou, quase na mesma rua. Com os braços nus pela regata, mas sem mancebos nos ombros ou em qualquer lugar.

“Mancebo. É esse o nome. Mancebo, é aquele troço que você vende.”

“Bem, bem, legal. Mas eu nem vendo mais aquilo. Foi só um bico, por alguns dias. Geralmente eu trabalho com realejo, só que tinha perdido meu periquito..."