domingo, 7 de dezembro de 2008

Empoeirado


A sutileza da caixa pequena
no fundo do armário.

O recorte da boca na face do espelho,
o adverso de superfícies tortas.

O ser diferente ansioso por semelhanças,
e o melhor esconderijo , aquele do lado do pegador.

Letras e palavras que reluzem pura e constantemente,
a dificuldade de absorção do silêncio, do cálido, do gelo.

Porém.
A caixinha abriu-se e de lá saiu
uma carta que há tempos não abria.
Uma folha de papel que tinha prometido
não ter suas linhas mais expostas e seus rabiscos
relembrados.

Ao vê-la, gritei.
E disse. Voz - há quanto não fazia isso.
Disse , invertendo. Disse , ouvindo.
Disse, o amor. Disse, o pesar. Disse ...
Desdenhoso e
engolfado.

Quão estranho,
a carta, agora, não queria se fechar.
Lucas G.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Veneno


Ouviu , hoje, aqueles cantos?
O estrondo , a sinfonia pra ti?
Será que percebeu
o anseio,
o desejo
pelo sorriso,
pela vivacidade?

Sentiu o cheiro da rua,
lá fora.
Saiu,
marcou a calçada?
Pisou na bosta,
enrijeceu a face com o cheiro da fumaça?

Abro as mãos e
tudo cai,
meus gritos ecoam
e meus passos
descartam –
como aquele três preto da tranca, lembra?

Grito alto,
aceno,
pulo,
sinalizo e
Vão.
Esboço,
rabisco,
os restos de borracha
colecionados pelas crianças.

Estou rouco, mas sentindo.
Estou suando, mas ali.
Estou errado.

Sou um tempo,
sou o fundo,
o intragável conhecedor
que quer gritar
alto
pra sair.
Lucas G.

O vento da praça e folhas secas

Ósseo,
orgânico,
ostenta e
fecha.


Volúpia,
vermes
adentrando
das vírgulas
aos sonhos.


Precoce e
veemente.
Criado,
ensejos,
metáforas
- as léguas.


Como as folhas secas,
as sementes,
o odor da rosa e
os espinhos.


O ciclo,
do nascer,
intensficar
e
secar em formas pálidas,
em rigidez e estrutura
morta.


Natural,
existente,
expressão dos soslaios,
oriunda,
enegrecida
germina,
germina,
existe.
Coexiste .


Flor dos tantos brotos,
favo do líquido doce,
passado,
presente e...
futuro.


sussurro dançante:
do vivo se faz o morto,
e como da morte faz-se o vivo?


A resposta está na natureza, e
na simplicidade de fazer parte dela.


Lucas G.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um texto

Hoje,
escrevi um texto.

Um texto que não consigo olhar,
mas eu quem escrevi.

Espreito. Vejo tudo
e enxergo nada.
(Eco e ego.)
Mas fui eu quem escreveu.
Sei o que lá diz.
Mas não posso fitá-lo.

Escrevi um texto,
um estupro, um gorfo.

Escrevi o primeiro pôr do sol que
não posso enxergar.

Aquilo tudo saiu de mim,
e não foi necessário
nada apagar.

Como se tudo estivesse pronto,
como se o gole já tivesse sido virado,
a faca cortado,
o sangue esguichado,
como se eu tivesse chorado;
mas sem as lágrimas, pois elas estão no texto
e não posso encará-lo.

Hoje , eu escrevi um texto
que me deu medo, insegurança, anseio, ira, desgosto e burrice.
Me deu doses daquilo que por tanto fugi .

Escrevi um texto,
um dia eu o mostro.
A espera desse dia chegar,
buscarei adentrá-lo.
Prometo!

O último voo do flamingo/ Mia Couto

Me virei: era minha mãe. Ou seria, antes a visão dela. Pois ela já há muito tempo passara a fronteira da vida, para além do nunca mais. Naquele momento, porém, ela surgia das folhagens, envolta em panos escuros, seus habituais. Não em saudou, simplesmente me orientou para junto do meu abrigo. Ali se sentou, aconchegando-se na capulana. Fiquei mudo e miúdo, à espera. Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz. Agora, que ela transitara de estado, eu acedia, completo, às visitas dela.
- Como é, filho: vive no lugar dos bichos?
Devolvi pergunta com pergunta:
- Há lugar, hoje, que não seja de bichos?
Ela sorriu, triste. Podia ter respondido: há, onde eu venho é gente. Porém, ela permaneceu calada. Rodou pelos arbustos e desfez folhinhas entre os dedos. Apurava perfumes e levava-os lentamente junto ao rosto. Matava saudades dos cheiros.
- A guerra já chegou outra vez, mãe?
-A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.
-E a mãe anda fazer o quê por essas bandas?
Eu queria saber se tinha terminado sua tarefa de morrer. Ela explicou-se lenta e longa. Andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas. Não responda com esse sorriso, você não sabe o serviço do choro. O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é , em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano. Pensava ela por outras, quase nenhumas, palavras. E suspirou:
- Haja Deus!
Lembrou-me como ela despertava, ants, toda alagada. Não houve, depois que meu pai nos deixou, uma manhã em que o sol a encontrasse em panos secos. Sempre e sempre ela e os choros. Todavia, isso fora antes, quando ela padecia da doença de estar viva.
- Não fique aqui que esses caminhos ainda têm o pé da guerra. A pegada está viva!
- Estou bem aqui, mãe. Nem me apetece regressar.
Ficámos ali horas trocando nadas, simplesmente adiando o tepo. Alonando o milagre de estarmos ali, na margem da floresta. Já entardecia, ela me avisou:
- Volte para a vila, há-de acontecer tantíssima coisa.
- Antes de ir, mãe, me lembre da estória do flamingo.
-Ah, essa estória não gasta...
- Me conte, mãe, que é para a viagem. Me fata tanta viagem.
- Então, senta, meu filho. Vou contar. Mas primeiro me prometa: nunca siga pelos carreiros onde seguiam aqueles homens que você espreitava há um bocadito.
- Prometo.
Então , ela contou. Eu repetia palavra por palavra, decalcando sobre a voz cansada dela. Rezava: havia um lugar onde o tempo não tinha inventado a noite. Era sempre dia. Até que, certa vez, o flamingo disse:
- Hoje farei meu último voo!
As aves, desavisadas, murcharam. Tristes, contudo, não choraram. Tristeza de pássaro não inventou lágrima. Dizem: lágrima dos pássaros se guarda lá onde fica a chuva que não cai.
Ao aviso do flamingo, todas as aves se juntaram. Haveria uma assembleia para se conversar sobre o assunto. Enquanto o flamingo não chegava, se escutavam os pios e rodopios. Se acreditava em tais ditos? Podia-se e não. Fosse ou não fosse, todos se demandavam:
-Mas vai voar pra onde?
- Para um sítio onde não há nenhum lugar.
O pernalta, enfim, chegou e explicou - que havia dois céus, um de cá, voável, e um outro, o céu das estrelas, inviável para voação. Ele queria passar essa fronteira.
- Por que essa viagem tão sem regresso?
O flamingo desvalorizava seu feito:
- Ora, aquilo é longe, mas não é distante.
Depois ele foi internando-se nas árvores sombrosas do magal. Demorou. Só apareceu quando a paciência dos outros já envelhecia. Os bichos de asa se concentraram na clareira do pântano. E todos olharam o flamingo coo se descobrissem, apenas então, a sua total beleza.Vinha altivo, todo por cima da sua altura. Os outros, em fila, se despediam. Um ainda pediu que ele desfizesse o anúncio.
- Por favor, não vá!
-Tenho que ir!
A avestruz se interpôs e lhe disse:
- Veja ,eu, que nunca voei, carrego as asas como duas saudades. E, no entanto, só piso felicidades.
- Não posso, me cansei de viver num só corpo.
E falou. Queria ir lá onde não há sombra, nem mapa. Lá onde tudo é luz. Mas nunca chega a ser dia. Nesse outro mundo ele iria dormir, dormir como um deserto, esquecer que sabia voar, ignorar a arte de pousar sobre a terra.
- Não quero pousar mais. Só repousar.
E olhou para cima. O céu parecia baixo, rasteiro. O azul desse céu era tão intenso que se vertia em líquido, nos olhos dos bichos.
Então, o flamingo se lançou , arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem, adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, aqs transparentes páginas do céu.Mas um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se avermelhara. Trasitava de azul para tons escuros, rocos e liláceos. Tudo se passava como um incêndio. Nascia assim o primeiro poente.

O seu olhar


"O seu olhar lá fora,

O seu olhar no céu,

O seu olhar demora,

O seu olhar no meu,

O seu olhar, seu olhar melhora

Melhora o meu.


Onde a brasa mora e devora o breu

Como a chuva molha o que se escondeu.

O seu olhar, seu olhar melhora, melhora o meu.

O seu olhar agora, o seu olhar nasceu,

o seu olhar me olha, o seu olhar é seu.

O seu olhar, seu olhar melhora, melhora o meu... "

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O meu líquido



Dos meus textos esguicham rubras quantidades de um líquido viscoso, porém palpável – diria até ludibriante.
Sem temer, num dia de sol e temperatura amena, resolvo o tocar.
Da simples ação à irremediável lembrança. Os gritos do avô na cadeira de balanço, as palavras elogiosas da tia favorita e as enfáticas expressões de um pai desacreditado.
Lembrei-me que eles viam o meu líquido de outra forma, com outra cor, até a textura era diferente da minha. Alguns o enxergavam adentrando cada palavra, outros chegavam ao ponto de dar-lhe nome. Diziam a inexperiência e a jovialidade do discurso.
Contudo pra mim, jamais distingui ou defini aquilo que escrevia. Possíveis aspirações, dramas cotidianos, medos, paixões, descasos e acasos, descrença, era disso que meu líquido sobrevivia.
Um dia, pensei que apenas eu o enxergava. Que apenas eu podia encontrar o meu líquido saindo das frias teclas de uma máquina de escreve-apaga. Ou seria eu apenas que o entendia?
Nunca havia definido seu real aspecto, mesmo porque eu nem sempre o via. Ás vezes do rápido passar de teclas, a minha frente, apenas palavras apareciam. Desconexas. Entrecortadas e temerosas – e dali nada escorria.
Em contraposição, vivia momentos, onde as palavras já não eram nem mais visíveis, e nesses dias eu me encontrava.
Depois do toque e diversos episódios – não necessariamente nesta ordem- entendi o por que daquela visão. Das minhas palavras nunca busquei entendimento, respeitabilidade ou absorção. Jamais quis que enxergassem a mesma coloração que via do meu líquido, ou que chegassem a vê-lo.
Para alguns, ingenuidade; para outros, simplórias palavras de conforto. Infantilidade e arrogância, para alguém.Talvez, entendimento e reflexão.
O poder daquele meu líquido era inimaginável e apenas o absorvi quando quis tocá-lo, quando quis entendê-lo.
Por que tanto escrevia? Por que, às vezes, precisava me encontrar.
E era só assim.
Ainda não descobri se, algum dia, alguém o enxergou ou viu a coloração que eu ainda vejo. Não eram de palavras impensadas que aquele mistério se formava, e sim do meu entender e das minhas palavras – quando eu me encontrava.
Lucas G.